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Abolição, Mandela e a voz dum barranqueiro
Entre conversas, canções e revelações, a musicalidade e singularidade do
multiartista Marku Ribas, na edição especial do “Noite do Griot” em celebração
à Abolição da Escravatura e 20 anos de libertação de Nelson Mandela
Foto: Netun Lima/Divulgação
Assim como o Brasil, mais de cinco séculos de história possui o rio, que conduz uma cultura de tradições indígenas e negro-africanas, entre mistérios guardados pelas carrancas das antigas embarcações das águas do Velho Chico, de onde um piraporense bebeu para correr o mundo com seu talento. Em mais uma edição, no dia 27 de maio, às 21 horas, o projeto Noite do Griot traz a arte e eloqüência de Marku Ribas, no Teatro Alterosa, com realização do Centro Cultural Casa África.
Muito presente no Norte de Minas, a tradição oral continua perpetuada através do legado dos mestres navegantes, da marujada e tambores do congado, na prosa de uma gente mestiça de índios e africanos, detentora de uma cultura muito peculiar. “Minha cidade, no Norte de Minas Gerais, à margem direita do rio São Francisco, é um sítio arqueológico de mais de 2.500 anos, chamado Cariri-Makú. Eu escrevi o meu nome ‘Marku’, com um ‘U’, para homenagear essa tribo. Venho de uma região que me ofereceu esse legado, que eu soube identificá-lo pra que pudesse me solidificar como cidadão e artista. A minha cultura de entendimento vem dessa história, das pessoas antigas de onde venho. Então, eu sou um barranqueiro da gota! Se há um cara que representa essa cultura barranqueira do rio São Francisco, sou eu”, revela Marku sobre suas heranças, como prova em músicas como Zi Zambi (escute no player abaixo) e Barrankeiro.
O músico, ator, cantor e compositor Marku revelará para o público suas múltiplas facetas e, também, parte da trajetória de 48 anos de palco, com conversas entre uma canção e outra e o que mais der na telha, já que o improviso dará a tônica da noite.
No mês que se comemora 122 anos da Abolição da Escravatura no Brasil, a Casa África realiza uma edição especial do Noite do Griot. A apresentação de Marku Ribas será precedida, às 19h30, da palestra Mandela: um herói Invictus que transcendeu o tempo, que será proferida por Carla Lopes Champagna.
Nesta 5ª edição do projeto, a equipe da Casa África inovou, iniciando com uma atração fora de Minas Gerais, ao levar o paulistano Rappin’ Hood para Porto Seguro. Em março, o compositor, cantor e agitador cultural baiano Carlinhos Brown deu início às atrações do projeto em Belo Horizonte, seguido do rapper Mano Brown, dos Racionais MC’s, e depois a atriz e poeta Elisa Lucinda. No dia nove de junho, o grupo Meninas de Sinhá encerra a edição 2010.
Realizado através do Fundo Nacional de Cultura, com produção de Karú Torres e Cristina Gandra, o evento tem entrada franca, com ingressos limitados a um por pessoa, que serão distribuídos a partir das 19 horas, na bilheteria do teatro. O cenário dessa edição foi concebido especialmente pelo artista plástico e cartunista Cau Gomes, belorizontino radicado há mais de uma década em Salvador.
Marku Ribas: música, cinema e censura
Com 64 anos de idade, Marco Antônio Ribas, nascido na cidade mineira de Pirapora, filho de pai negro médico e de mãe descendente de índios kayapó, tornou-se no Brasil e em diversos países conhecido como Marku Ribas, nome artístico adotado a partir de 1969.
Artista intenso e de grande diversidade nas atuações, Marku é tido por muitos como um dos gênios da cultura brasileira. Na música, ele é dono duma profusão criativa, com miscigenações rítmicas de fusões que vão do samba, xote, baião, batuque e reisado até o encontro com o jazz, rock, funk e a música caribenha. A estréia nos palcos foi em 1962, ainda em Pirapora, com o grupo chamado Flamingo, em que Marku era acompanhado por amigos. Eram os irmãos Haroldo e Paulo Anunciação, Hélio Ramos e Osvaldo Damásio, conhecido como Duzinho. Em 1965, eles gravaram um compacto no Rio de Janeiro, pela gravadora Musidisc. Já em 1967, Marku vai a São Paulo, e lá grava pela Continental o LP Déo e Marco, com um antigo parceiro de Pirapora.
Ainda no mesmo ano, em momento efervescente nas composições participou do Festival da Música no Rio de Janeiro, com a canção Canto Certo, que mais tarde foi intitulada Alerta Geral e gravada por Alcione. A música foi censurada pela ditadura, pois trazia os versos: “Como viver calado se também sofro as dores da situação?/ Cada dia tá mais difícil de cantar (...) / Vamos fazer nossa revolução/ Porque chorar, chorar pra quê? / Quem tem consciência pesada é você”. Diante da represália, a resposta de Marku veio no próximo festival com Nunca Vi (escute no player abaixo), canção que também foi censurada e depois teve versos modificados em parceria com o mago Paulo Coelho (Mente e Coração, Phillips, 1980).
A perseguição nos festivais resultou na prisão de Marku em outubro de 1968. Diante disso, o artista resolveu exilar-se em Paris, onde participou como ator de filmes importantes da Nouvelle Vague, como Quatre Nuit D’une Revêur (1969), de Robert Bresson, e Revolution (1970), de Jean-Marc Tibeau. Em Paris, montou o grupo Batuki, que se apresentou na Europa e Caribe, onde veio a morar por quatro anos na Martinica, ainda no princípio dos anos 1970. De férias, esteve no Brasil nessa época, quando gravou o emblemático disco Underground, recheado do que Marku sabe fazer melhor: polirritmias, harmonias bem elaboradas e melodias difusas, expressando sua “internacionalidade”, com uma atenção especial para as tradições africanas e caribenhas. O disco foi lançado nos anos de 1972 e 73, pelas gravadoras Copacabana (Brasil) e Vogue (França), e traz o grande sucesso Zamba Ben (escute no player abaixo), que está entre os maiores hits brasileiros do samba-rock.
Novamente de passagem no Brasil, em 1975, Marku grava o álbum Marku, lançado também aqui e na França em 1976 pela Copacabana. Em 2002, a gravadora EMI em parceria com o selo Aorta Música colocou novamente no mercado brasileiro, remasterizados e em único CD, os dois discos com o título Marku 72/75. Completa discografia do artista: Barrankeiro (Phillips, 1977), Cavalo das Alegrias (Phillips, 1979), Mente e Coração (Phillips, 1980), 20 Anos (Timbre/Piraporarte, 1983), Autóctone (Piraporarte, 1991), Cor da Pele (108/Piraporarte, 1997) e o DVD Marku Ribas – Toca Brasil (Itaú Cultural/+ Brasil Música, 2008). Em fase de finalização, Marku prepara um novo disco autoral com inéditas, com previsão de lançamento ainda este ano.
Como compositor, Marku é parceiro de João Donato, Arnaldo Antunes, Erasmo Carlos, BiD, Luizão Maia, entre outros. Já foi gravado por artistas do quilate de Alcione, Emílio Santiago, Paula Lima, Clube do Balanço, Marcelo D2 e Jair Rodrigues. Participou como músico de gravações com Chico Buarque, em Ópera do Malandro (1979), Sebastião Tapajós e Maurício Einhorn, Erlon Chaves, Sivuca e do disco Dirty Work (1985), do Rolling Stones.
Visto como “um dos verdadeiros arquitetos da música brasileira”, a quem Ed Motta considera “ultraoriginal”, Marku é referência cultuada e respeitada por uma nova geração de músicos por todo Brasil.
Como se não bastasse a música, no cinema Marku também fez trabalhos relevantes. Antes de atuar em filmes na França, participou como músico, em 1966, da peça Cantos de Amor à Bahia, de Jorge Amado, e teve atuações de destaque nos filmes de Helvécio Ratton, Uma onda No Ar (2002) e Batismo de Sangue (2007), em que viveu nesse último o revolucionário Carlos Marighela. Recentemente, participou de Lula, Filho do Brasil, de Fábio e Luís Carlos Barreto, e em Chega de Saudade, da diretora Laís Bodanzky.
Mandela e a Abolição da escravatura no Brasil
Ilustração: Sue Dickinson
Para a comunidade negra no Brasil, vale lembrar que maio é um mês para celebrar a liberdade, quando em 13/05/1888 foi definitivamente abolida a escravidão para negros africanos e seus descendentes. Em 2010, em especial, além de se celebrar 122 anos que a população negra brasileira está livre do regime escravagista, também são celebrados os 20 anos de liberdade de um dos maiores líderes mundiais contra a discriminação racial e a favor dos direitos humanos. Em 11 de fevereiro de 1990, o líder negro sul-africano Nelson Mandela era libertado pelo governo africânder, após cumprir 27 anos de reclusão prisional por liderar ações e protestos na luta anti-apartheid, para por fim ao regime que segregou por mais de 350 anos uma maioria de negros, colocando-os em situação de marginalização e desvantagens de direitos sociais, políticos, culturais e econômicos diante dos brancos no país. Nos anos 50, Mandela escreve um dos textos mais belos em favor dos direitos humanos, a Carta da Liberdade, aprovada pelo Congresso do Povo, em junho de 1955. Membro do Congresso Nacional Africano, partido que acabou entrando na ilegalidade imposta pelo Apartheid, em 1960, após o massacre de Sharpeville, quando a polícia abriu fogo contra manifestantes negros desarmados que protestavam contra a Lei do Passe – que restringia onde cada negro poderia circular. Após esse fato, Mandela lidera a intensificação das ações contra o regime.
Ainda em cárcere, em 1989, Mandela recebe o Prêmio Internacional Al-Gaddafi de Direitos Humanos. Já em liberdade, em 1993, junto com o ex-presidente Klerk, recebeu o Nobel da Paz. Em 1994, Mandela é eleito o décimo presidente da África do Sul, sendo o primeiro negro, ocupando a presidência até 1999. Após o mandato, em 2003, Mandela organiza o evento 46664 Concert – em referência ao seu número de matrícula prisional – para arrecadação de fundos contra a AIDS, retirando-se da vida pública.
Para falar sobre a vida e trajetória de Nelson Mandela, a Casa África convidou a moçambicana Carla Lopes Champagna, assessora e representante oficial no Brasil da Fundação de Desenvolvimento da Comunidade (FDC), entidade internacional com atuação na África do Sul, Moçambique e Brasil, criada pela senhora Graça Machel, esposa de Mandela. A palestra Mandela: um herói Invictus que transcendeu o tempo iniciará às 19h30, e terá mesa composta pelo embaixador do Senegal no Brasil, Sr. Fodé Seck, a presidente da Fundação Municipal de Cultura, Thaís Pimentel, Rodrigo Perpétuo, secretário Adjunto de Relações Internacionais da Prefeitura de Belo Horizonte, com mediação de Marcos Cardoso, historiador e pesquisador da Fundação Centro de Referência da Cultura Negra.
Noite do Griot – 5 anos
Entre os vários projetos, o Noite do Griot surgiu em 2005, com especial carinho do CCCA, para valorizar as tradições da matriz africana de expressão oral, da poesia à música com heranças na afrobrasilidade, nos mais variados gêneros e geografias culturais. “Pela organização perfeita, pelo seleto público que acorre aos eventos e pela firmeza de propósitos que motiva os organizadores, o Noite do Griot é um grande destaque em meio ao grande número de projetos vazios, amadorísticos, que vêm, por puro oportunismo, ocupando a cena cultural afrobrasileira”, defende Nei Lopes, sambista e compositor carioca que participou do projeto em 2008.
O Noite do Griot é quase um teste para o artista, pois despindo-o de todo aparato tecnológico para um formato acústico e menos plugado possível, sem uma quantidade numerosa de músicos, quem sobe ao palco encontra-se, praticamente, na sua essência artística, reservada ao artista na maioria das vezes nos momentos de criação solitária. A cantora paulistana Fabiana Cozza, está entre aqueles que encantaram-se pelo projeto e acredita que “o Noite do Griot quebra a dita 4ª parede que tanto se fala no teatro com relação ao público, já que ele (o público) entra e participa no espetáculo. Não adianta muito o artista ter um roteiro a seguir, pois o público dita um pouco sobre o que vai ser apresentado. Além disso, o artista que está nesse palco sente-se ‘desnudado’ diante do espectador, pela condição intimista, da proximidade, pela fala mais coloquial e direta. Isso nos conduz a um lugar muito ancestral, muito africano, de transmissão da palavra e arte na essência”.
Na busca de apresentar a diversidade das heranças africanas no Brasil, o Noite do Griot prima por mostrar artistas dos mais variados estilos, do samba ao rap, passando pela música mais experimental atingindo até tradições mais reservadas aos quilombos e comunidades rurais, como é o caso do congado e candombe em Minas. “O projeto é muito bem pensado. Vejo e sinto que é necessário para divulgar no país nossas matrizes africanas. Senti-me muito feliz ao participar, revelar a oralidade que trago como espelho no meu trabalho artístico, de transmitir as coisas da minha infância, que foram passadas por meus pais, que por sua vez receberam dos meus avós. Como minha música tem essa matriz no meio rural, para mim foi importante ter essa interlocução na área urbana. São poucos projetos que têm essa abertura para entender essas matrizes africanas que estão no campo”, acredita o violeiro e cantor Pereira da Viola.
Sobre Griots
O trânsito secular de saberes por meio da Tradição Oral, através de pessoas que eram e são guardiãs de grande parte da história de nações inteiras, das quais versam sobre as glórias do passado de dinastias dos grandes impérios africanos, até a preservação de rituais e preceitos que coexistem nas sociedades atuais. Esses são os chamados griots, que mais que pessoas comuns são dotados de profundo conhecimento transmitido geração a geração, tendo ainda muitas habilidades artísticas, como a música, retórica e a poesia, muitas vezes transmitidas em locais públicos, seja em praças ou embaixo de frondosos baobás. Num passado de inexistência de livros, foram esses griots os responsáveis por perpetuar a história e costumes de suas sociedades, tanto que os jovens africanos que primeiro partiram para a Europa para estudar diziam que “a morte de um griot representa o mesmo que a queima de uma biblioteca”.
Serviço:
Noite do Griot 2010 – Especial de Maio
Palestra “Mandela: um herói Invictus que transcendeu o tempo”, com Carla Lopes Champagna – 19h30
Apresentação Marku Ribas – 21 horas
Data: 27 de maio (quinta-feira), a partir das 19h30
Local: Teatro Alterosa (av. Assis Chateaubriand, 499, Floresta)
Entrada franca – retirada dos ingressos limitados a um por pessoa, a partir das 19 horas, na bilheteria de teatro.
Classificação: 18 anos
Informações: (31) 3237-6611
Assessoria de Imprensa:
BEBOP Comunicação & Cultura
(31) 3224-1251 e bebop@bebopcomunicacao.com
Agora, curta um pouco da musicalidade de Marku Ribas, na pequena seleção abaixo. Aproveite e comente sobre o texto e as músicas.
Zamba Ben (Marku Ribas), de Underground (1972)
Zi Zambi (Marku Ribas), de Marku (1975)
Nunca Vi (Marku Ribas / Paulo Coelho), de Mente e Coração (1980)
Mussulo (Marku Ribas), de Autóctone (1991)
BEBOP Comunicação & Cultura
(31) 3224-1251 e bebop@bebopcomunicacao.com
Agora, curta um pouco da musicalidade de Marku Ribas, na pequena seleção abaixo. Aproveite e comente sobre o texto e as músicas.
Zamba Ben (Marku Ribas), de Underground (1972)
Zi Zambi (Marku Ribas), de Marku (1975)
Nunca Vi (Marku Ribas / Paulo Coelho), de Mente e Coração (1980)
Mussulo (Marku Ribas), de Autóctone (1991)

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